Num ano atípico, em que as pessoas tiveram que aprender a se ressocializar e se manifestar de maneira diferente, o simples fato de participar de um evento da envergadura do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB), mesmo que virtualmente e sem a presença, in loco, do público, foi um grande feito. Maior vitrine da produção nacional no País, o festival encerrou na segunda-feira (21) sua 53ª edição.

“Acreditar e persistir em fazer o cinema brasileiro. Exibir os filmes em festivais, viver e continuar vivendo essas histórias. Esse reconhecimento para o filme é importante porque a mensagem dele é muito bonita”, comentou o cineasta Lino Meireles, ainda exultante com os três troféus conquistados em sua pioneira participação no evento com o documentário Candango: Memória do Festival, uma viagem afetiva pela origem e os bastidores do mais emblemático evento cinematográfico do País.

O cineasta Lino Meireles comemora os três troféus conquistados em sua pioneira participação no evento com o documentário Candango: Memória do Festival | Foto: Divulgação/Secec

Além de levar o Troféu Câmara Legislativa de Melhor Longa da Mostra Brasília e a menção Marco Antônio Guimarães, pelo belíssimo trabalho de pesquisa, o filme foi eleito o mais querido do público da corrida paralela, no Júri Popular, com quase 45% dos votos. “A primeira coisa que penso depois de uma tarde daquelas, com esses prêmios, é a saudade da minha equipe”, lembra Lino. “O cinema é uma coisa que a gente faz em conjunto, um prêmio para um filme é um prêmio para muita gente. Três então…”, festeja.

Carioca que viveu dez anos em Brasília, Betse de Paula conhece bem a loucura que é o público do Festival de Brasília e a aura mítica do Cine Brasília. Para ela e muitos, uma Meca do cinema nacional, o que reitera a importância de se ter realizado o evento este ano, mesmo com todos os problemas envolvendo a pandemia e o desmonte da cultura nacional.

“Ser selecionado para o Festival de Brasília já é, em si, o prêmio. Queria parabenizar a organização do festival por fazer esse evento incrível e atípico. Foi um prazer ter participado e, muito melhor, com o prêmio recebido”, agradece ela, referindo-se ao Prêmio Especial da Mostra Oficial de Longa, pela Montagem de A Luz de Mario Carneiro, trabalho realizado por Márcia Luz, com quem trabalha há anos. “A dedicação dela à montagem é uma coisa admirável”, resume.

Ainda debruçado sob sombras brasilienses, a ficha não caiu para o diretor David Murad, vencedor do Prêmio de Melhor Curta da Mostra Brasília com o drama de ficção Do Outro Lado, projeto de uma década, que narra as peripécias de um garoto de nove anos que tenta ampliar seus horizontes com o simples fato de atravessar a rua.

Do Outro Lado foi meu primeiro roteiro e, por muito tempo, tentei realizá-lo. Ter esse primeiro reconhecimento justamente no festival em que me criei, tantas vezes estive como público e imaginei um dia estar como realizador, é incrível”, desabafa o diretor. Para ele, ser premiado num dos mais relevantes eventos do gênero do País é um passaporte para o prestígio. “Acredito que carregar o ‘selo’ do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro vai ajudar nessa jornada. Hoje sou pura gratidão à minha maravilhosa equipe que fez esse filme acontecer”, destaca.

O Brasil profundo em foco

Uma das arquetípicas figuras do Brasil profundo, o personagem Macunaíma foi imortalizado pelo escritor modernista Mário de Andrade no clássico livro que escreveu em 1928, mais tarde popularizado no filme homônimo de Joaquim Pedro de Andrade, de 1969. Nessa edição do 53º FBCB, o mito de origem indígena foi desnudado para toda a nação por meio do exuberante documentário Por Onde Anda Makunaíma?, de Pedro Séllos. O resultado? O prêmio máximo da competição: Melhor Filme da Mostra Oficial de Longas do evento.

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Pedro Séllos levou o prêmio máximo da competição: Melhor Filme da Mostra Oficial de Longas, com o documentário Por Onde Anda Makunaíma? | Foto: Divulgação/Secec

Para o jovem talentoso cineasta e sua equipe, o Troféu Candango é mais do que a valorização da multiplicidade da cultura brasileira, com todos os sotaques, cores, feições e visões de mundo. É, também, o resgate e o reconhecimento do saber dos povos indígenas que, há séculos, resistem aos ataques culturais, religiosos, econômicos e políticos.

“Agora, mais do que nunca, agradeço a eles, principalmente o prêmio. O filme é fruto de muita dedicação e idealização de um cinema sensível e de resistência”, comenta. “Estou transbordando de alegria. Acho que para mim e toda equipe, que passa pelo Sul, Sudeste, Norte e Nordeste, este prêmio é um dos maiores reconhecimentos possíveis!”, diz.

Autor de um dos filmes mais contundentes do festival, contado de forma poética e atmosférica, o diretor Rodrigo Ribeiro levou o Candango de Melhor Direção pelo curta A Morte Branca do Feiticeiro Negro. Na narrativa documental, o cineasta explora o fantasma da escravidão no Brasil.

“Mais do que um ganho, o prêmio representa uma vitória de realizadores pretos que conquistam espaços que supostamente não era para ser nosso – vide tamanha discrepância de atuação e oportunidades entre brancos e pretos na função de diretor”, lamenta. “Ocupar esses cargos, contar nossas histórias, a partir de um olhar subjetivo e intransferível é um sonoro ‘estamos aqui!’”, fala, orgulhoso.

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Um dos projetos mais premiados foi o curta Pausa Para o Café, de Tamiris Tertuliano, que mostra a força do olhar feminino em meio à dureza do cotidiano | Foto: Divulgação/Secec

A força da delicadeza feminina

Um dos projetos mais premiados nessa edição do festival, o curta Pausa Para o Café, de Tamiris Tertuliano, traz a força do olhar feminino em meio à dureza do cotidiano. É a história de duas mulheres cúmplices de seus problemas e conflitos pessoais num rápido intervalo de um café. O delicado desempenho das atrizes Maya e Rosana Stavis foi reconhecido pelo Júri Oficial da competição com o Candango de Melhor Atuação.

“Ter nossa produção selecionada para o Festival já foi uma alegria sem tamanho. A premiação é a cereja do bolo que precisávamos para ter o ânimo de prosseguir nesse ano tão difícil que foi 2020. Estou extasiada e muito animada para futuros trabalhos, quero sempre estar cercada de mulheres incríveis”, diz, animada, a diretora e co-roterista Tamiris Tertuliano, à frente de uma pequena produtora de Curitiba.

“Maya e Rosana Stavis mereciam nada menos que a premiação. Trabalhar com cada uma delas me fez perceber que o cinema não só merece mais mulheres, precisa de mais mulheres à frente de projetos”, reivindica a diretora do filme, que ainda venceu os Candangos de Melhor Roteiro e Montagem.

*Com informações da Secretaria de Cultura e Economia Criativa

Fonte: Agência Brasilia