Leandro Monteiro, secretário de Estado de Defesa Civil e comandante do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de JaneiroAnderson Santos

Por Sidney Rezende

Publicado 23/05/2021 06:00

Há sete meses, Leandro Sampaio Monteiro assumiu a dupla função de secretário de Estado de Defesa Civil e comandante do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro. “Ter um ligado ao outro traz agilidade, principalmente nas ações de Defesa Civil. Investimos em planejamento para a execução operacional dos serviços prestados à população com excelência – uma atuação global que envolve ações de prevenção e socorro”, explicou em entrevista ao jornal O DIA. Filho de bombeiro militar, Leandro ingressou na corporação em 1998 e, agora, como comandante, fala sobre o investimento imediato de R$ 65 milhões que foi confirmado para o Corpo de Bombeiros. “Depois de um período em que os investimentos ficaram mais voltados para a criação de novas unidades, o CBMERJ está focado principalmente em dois pontos: aumentar seu contingente que tem um déficit, segundo a legislação, atualmente de cerca de 8.000 militares em todo estado, e se equipar melhor, processo que já está iniciado com a confirmação dos investimentos que serão feitos pelo governo estadual. Eles serão destinados à compra de veículos 4×4, equipamentos de proteção individual (EPIs), cestas básicas, colchonetes, kits de higiene e água”.

O senhor é secretário de Estado e Defesa Civil e Comandante Geral do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro há menos de um ano. Qual a sua prioridade à frente do cargo?

Nosso principal objetivo nesse primeiro ano no comando da corporação foi conhecer de perto o trabalho e as necessidades de investimentos de cada unidade do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (CBEMRJ) e da Defesa Civil para que pudéssemos estabelecer prioridades e, assim, direcionar os investimentos para onde eles eram mais necessários e urgentes, sempre com o objetivo de melhorar o atendimento à população fluminense. Percorremos todo o estado para conhecer as características de cada quartel e mapear quais são os principais atendimentos em cada região, pois cada unidade tem necessidades diferentes. O trabalho do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil em cidades serranas é bastante diferente daquele realizado em municípios litorâneos, por exemplo. O mais importante que é preciso destacar é que, pela própria natureza dos serviços que prestamos, é necessário sempre ter boa estrutura física, estar bem treinado e equipado para cumprir as missões, da melhor maneira possível, a qualquer momento. Esse é o objetivo dessas visitas, conhecer de perto cada realidade, de cada quartel, para que possamos melhorar as condições de trabalho dos nossos militares. Outra questão que estamos enfrentando, com todo o apoio do governador Cláudio Castro, é relacionada ao contingente do nosso efetivo. Tínhamos no início do ano cerca de 11 mil militares, quando o ideal seriam 22 mil. Portanto, começamos o ano com um déficit de 50% de militares. Nos últimos 5 meses, já se aposentaram 900 militares. E a previsão é que mais 1.700 se aposentem até dezembro. O governador, muito sensibilizado com essa questão, já autorizou concurso para 3 mil militares que serão temporários, podendo ficar na corporação até 8 anos, e também outro processo de seleção para 300 militares que seguirão carreira na instituição. Nas próximas semanas, estaremos realizando o concurso para o quadro temporário e, no segundo semestre, para os efetivos.

Como a corporação está enfrentando a pandemia?

Estar na linha de frente é um desafio. Mas nos preparamos para isso. A corporação não mede esforços para o atendimento à população, sem descuidar da saúde dos militares e da sociedade. O CBMERJ implantou uma série de protocolos e procedimentos operacionais de segurança, realizando capacitações frequentes da tropa, reforçando o estoque de equipamentos de proteção individual, investindo na sanitização das unidades e no serviço de atendimento/assistência a bombeiros ativos, inativos e dependentes com casos de Covid-19. Destaco a construção do nosso hospital de campanha, localizado no Rio Comprido, com leitos destinados a casos suspeitos ou confirmados de coronavírus entre os usuários do Sistema de Saúde da corporação. Se internamente estamos tomando todas as precauções, por outro lado, realizamos também ações proativas em cooperação com outros órgãos no combate à pandemia. Todo nosso efetivo está com férias e licenças suspensas e estamos disponibilizando quartéis para vacinar a população em um plano conjunto com os municípios. Estamos, ainda, colocando nossas aeronaves à disposição para a distribuição das doses. Além de lanchas e viaturas 4 x 4 para levar a vacina a locais de difícil acesso. Para se ter uma ideia, atualmente, temos realizado diariamente, em média, 15 transportes aéreos ou de ambulância de pacientes do interior para a capital, além de disponibilizar 8 aeronaves para transporte de vacinas, contribuindo para que o nosso estado seja o mais rápido na distribuição dos imunizantes. Também estamos atuando junto a várias instituições na fiscalização de eventos que supostamente envolvem aglomerações. Desde 25 de novembro de 2020, o Corpo de Bombeiros já realizou mais de 800 procedimentos administrativos – entre emissão de notificações, autos de infrações e interdições em todo o Estado. Neste período, ocorreram 183 interdições. Até o momento, foram registradas cerca de 640 denúncias relacionadas a aglomerações em eventos.

Qual a relevância de haver uma centralização do comando da Secretaria de Estado e Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros Militar?

A centralização é muito importante, pois o trabalho das duas instituições são complementares. Afinal de contas, o Corpo de Bombeiros é o braço operacional da Defesa Civil. Ter um ligado ao outro traz agilidade, principalmente nas ações de Defesa Civil. Investimos em planejamento para a execução operacional dos serviços prestados à população com excelência – uma atuação global que envolve ações de prevenção e socorro.

O senhor se preocupa em desenvolver uma gestão inclusiva? Quantas mulheres exercem função de comando?

O total de mulheres na corporação atualmente chega a cerca de 2.400 militares, em torno de 20% do contingente, que atuam como soldados, sargentos, capitães, guardas-vidas, especialistas em socorros florestais e, até, uma subtenente musicista que faz parte da banda do CBMERJ. O primeiro concurso que admitiu mulheres do CBMERJ foi em 1994. De lá para cá, muita coisa mudou na corporação e, desde outubro de 2020, três tenentes-coronéis, Silvia Santana, Fabiana Cruz e Viviane Lenida, comandam quartéis que estão entre as unidades mais importantes da capital fluminense: Vila Isabel, Jacarepaguá e Humaitá, respectivamente. Em novembro, a tenente-coronel Mariana também foi nomeada para diretora de Diversões Públicas, aumentando a participação feminina nos cargos de direção e comando do CBMERJ. As três militares que hoje comandam três dos principais quartéis do estado entraram juntas na corporação, em 2001, na primeira turma feminina de oficiais, formando-se em 2003. Considero as nomeações completamente normais, pois tratam-se de profissionais que se destacaram e que merecem os postos de comando que ocupam hoje, independente de serem mulheres. Nessa lista de pioneiras, quero lembrar também da major Rachel Lopes, que merece um lugar de honra, sendo a primeira mulher comandante piloto de aeronaves dos bombeiros, atuando hoje ao lado de outras duas pilotos femininas.

Foram confirmados investimentos imediatos na ordem de R$ 65 milhões no Corpo de Bombeiros. O que os senhores farão com este dinheiro?

Depois de um período em que os investimentos ficaram mais voltados para a criação de novas unidades, o CBMERJ está focado principalmente em dois pontos: aumentar seu contingente que tem um déficit, segundo a legislação, atualmente de cerca de 8 mil militares em todo estado, e se equipar melhor, processo que já está iniciado com a confirmação dos investimentos que serão feitos pelo governo estadual. Eles serão destinados à compra de veículos 4×4, equipamentos de proteção individual (EPIs), cestas básicas, colchonetes, kits de higiene e água. Até o final deste ano, os valores alocados pelo governo estadual devem chegar a R$ 300 milhões, o que inclui a construção de novas unidades, a compra de viaturas – que chegam a custar R$ 4 milhões – além dos investimentos em novo hospital com 200 leitos na Barra da Tijuca, primeiro projeto assinado por um membro da corporação, o tenente-coronel Santana, que é engenheiro. Nossas obrigações vão muito além dos 13.078 socorros no trânsito, 27.579 operações marítimas, terrestres e aéreas, 10.228 combates a incêndios, 599 socorros a escapamentos de gás e explosões, 11.933 atendimentos pré-hospitalares, 3.655 recolhimentos de cadáveres, 2.807 eventos relacionados à chuva, 2.261 apoios operacionais a outros órgãos e, pasmem, 21.994 trotes. São no total 82.722 chamados em todo Estado, uma média de 795 atendimentos diários, somente nos primeiros três meses deste ano, antes de nossa tropa começar a ser imunizada. Por trás disso tudo, existem investimentos pesados em treinamento, capacitação e qualificação de nossa tropa de bombeiros. Recursos são alocados constantemente para implementação de novas tecnologias e equipamentos para melhorar a eficiência do trabalho e para que ele seja realizado com segurança, rapidez e assertividade, itens fundamentais de nossa atuação, onde poucos segundos podem fazer a diferença entre a vida e a morte de pessoas ou evitar a destruição de patrimônios.

Falemos de um outro problema que tem se intensificado no Rio de Janeiro, o fortalecimento das milícias na área metropolitana do Rio e na Baixada Fluminense. Os Bombeiros já foram acusados de se envolverem com o crime organizado. Qual a sua receita para combater este grave problema?

Como qualquer grande instituição, lidamos com seres humanos. Temos problemas pontuais, obviamente. Mas nossa Corregedoria é forte, e está sempre atenta a estreitar o relacionamento com outras corporações. Os resultados são benéficos, fortalecendo, assim, as atividades correcionais e o alinhamento de procedimentos.

O Rio está equipado para enfrentar grandes catástrofes? Os equipamentos são novos?

O CBMERJ está devidamente equipado para atender à população do Rio de Janeiro quando necessário. Devido à natureza de nossa atividade, a modernização não apenas de equipamentos, mas também de procedimentos e capacitação, precisa ser constante para que nossos militares possam estar preparados para realizar suas missões da forma mais segura possível em busca sempre do nosso objetivo que é salvar vidas e patrimônios. Com as visitas periódicas a todas as unidades da instituição, tenho tido oportunidade de ouvir as necessidades dos militares, verificando as condições das instalações, cuidando destas demandas. Estou conhecendo de perto as peculiaridades das partes administrativas, operacionais e acomodações dos militares para que sejam feitos levantamentos de dados e estudos, visando à implementação de reformas e ampliações. Cito aqui, só para exemplificar, a retomada das obras da nossa Academia Militar e a criação do 1º Centro de Afogados do Estado. Destaco ainda a aplicação de nossos investimentos: a corporação planejou a aquisição, até o final do ano, de 70 viaturas de combate a incêndio, com capacidade de cinco mil litros de água, totalmente equipadas com desencarceradores (mecanismo que permite a retirada de vítimas presas em ferragens), geradores, almofadas pneumáticas, exaustores e outros equipamentos de ponta. O investimento de R$ 140 milhões na atualização dos equipamentos será feito com a verba oriunda da taxa de incêndio.

O que está sendo feito hoje para evitar enchentes, deslizamentos e imperícias que possam gerar incêndios?

Logo no início do nosso comando, conversei com o governador Cláudio Castro e ele se mostrou muito preocupado com as enchentes e deslizamentos e outros problemas que ela acarreta, pois todos nós temos esse tipo de problema em várias regiões do estado. Elaboramos, então, um grande plano de contingência sob a minha coordenação, onde um dos pontos principais foi promover a integração entre várias secretarias de governo – obras, transporte e meio ambiente e outras – e nos planejamos para que, se houvesse acidentes, pudéssemos trabalhar de forma coordenada. Felizmente, não tivemos nada grave, mas tivemos chamados das regiões Norte, Noroeste e da Baixada Fluminense que foram prontamente atendidos. Por exemplo, em Caxias houve um problema e o CBMERJ foi chamado às 9 horas e apenas 90 minutos depois, eu estava com o governador no local para avaliarmos as medidas necessárias. Às 14 horas, os desabrigados já estavam recebendo atendimento e foram alocados em um local seguro.

Qual a sua explicação para o carioca soltar tantos balões sem levar em conta os incêndios recorrentes?

Quem vê balões voando pelo céu nessa época do ano que está chegando nem sempre conhece os riscos que carregam e as tragédias que podem causar. Por voarem sem destino correto, somente sendo levados pelos ventos, esses artefatos podem cair em qualquer lugar ou sobre qualquer coisa, podendo ferir pessoas, atingir redes elétricas, incendiar matas, entre outros. Os balões são feitos da combinação de estopa com materiais inflamáveis (parafina e querosene ou álcool) aquecidos em seu interior. Por isso, dependendo de onde caiam, podem causar danos irreparáveis como incêndios e explosões. A situação se agrava durante o período de estiagem (maio a outubro) em razão das condições climáticas que favorecem a propagação do fogo, como as chuvas escassas e os ventos mais intensos. Os incêndios provocam o empobrecimento do solo, a destruição do habitat dos animais; contribuem para o desaparecimento de espécies vegetais ameaçadas de extinção; além de aumentar o percentual de dióxido de carbono na atmosfera e sua influência no efeito estufa. Os balões também podem oferecer sérios riscos à aviação, os maiores podem atingir com facilidade cerca de cinco a sete mil metros. Até mesmo os pequenos podem vir a provocar acidentes em contato com as turbinas dos aviões quando estiverem próximos ao pouso ou decolagem. Outra consequência frequente são as queimaduras, que podem ser de primeiro, segundo ou terceiro graus. Além da dor, a vítima apresenta, de acordo com a classificação, vermelhidão, bolhas e, até mesmo, comprometimento dos tecidos da pele, musculatura e perfuração dos ossos. E por colocar a vida das pessoas em risco, soltar balão é considerado uma prática criminosa, assim como fabricar, vender e transportar. Quem for pego praticando alguma dessas atividades pode ser penalizado. 



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