Pexels/Keira Burton

“Não teve o mínimo de respeito por mim”, diz editora que sofreu golpes de ex-namorado

Os amigos de Jéssica*, 34, editora, achavam que Jorge* era o  namorado perfeito
para ela. Nenhum deles desconfiava que Jéssica passou por quase um ano de relacionamento
 com aquele sujeito que em público aparentava ser atencioso e simpático. Enquanto isso Jéssica arcava com responsabilidades financeiras dele, como pagamento de pensão alimentícia, advogado e gasolina, enquanto ele fingia que não tinha dinheiro
.

Tudo começou quando os dois se encontraram pessoalmente em 2018, depois que ele quase a atropelou em uma vaga de farmácia. Eles se conheciam desde 2010, mas, na época, Jorge era casado. Quando foram tomar uma cerveja depois do encontro quase acidental, ele disse que estava se divorciando. Começava o relacionamento que duraria quase um ano.

Com dois meses de namoro,  ele se mudou para a casa dela
depois de uma briga que teve com a mãe. Daí para frente, Jorge, que trabalha como motorista de aplicativo, estabeleceu um relacionamento de dependência emocional. Daí em diante Jéssica começou a perceber que a aparência de bom moço não correspondia exatamente à realidade. Leia o relato de Jéssica para o iG Delas.

“A gente se conheceu no Twitter em 2010. Na época ele era casado, por isso nunca saímos. Nos reencontramos em 2018 e ele estava se divorciando. Ele quase me atropelou um dia e me reconheceu. Mais tarde, me chamou no Instagram e me chamou para tomar uma cerveja. Não estava realmente interessada em sair com ele, mas tinha muita coisa na cabeça. Meu avô estava doente naquela época e eu sempre fui a cuidadora dele. Mas acabei topando.

Duas semanas depois, ele me pediu em namoro e nós passamos quase um ano juntos. O Jorge era um cara super inteligente, academicamente falando. Entrou diversas vezes em universidades públicas, mas nunca terminou nenhum curso. Ele sempre jogava a culpa em cima da ex-mulher dele.

Ele tem uma filha biológica e um filho da ex-mulher dele que ele ajudou a criar. Ele se vende muito bem como um bom pai nas redes sociais, inclusive para mim. Jorge também era muito solícito. Como ele era motorista, ele dizia que podia ir me buscar nos lugares e chegou a me proibir de chamar outro motorista pelo aplicativo. Hoje percebo que essa era uma das maneiras que ele arranjou para cercear minha liberdade.

Com dois meses de namoro, Jorge disse que tinha brigado com a mãe dele e pediu para morar comigo. Disse que não tinha para onde ir e que estava pensando em morar com o pai dele, em um lugar mais afastado. Depois, ele sugeriu que queria morar comigo e eu acabei aceitando.

Depois disso começaram os problemas financeiros. Primeiro, ele não tinha dinheiro para pagar a gasolina para trabalhar. Depois, ele não conseguiu pagar o advogado que estava organizando o divórcio no papel. Ele também dizia que não tinha dinheiro para pagar a pensão da filha
, que é uma das poucas coisas que realmente dá cadeia. Então eu acabei ajudando várias vezes. A partir desse momento, tudo virou uma grande zona, porque ele nunca tinha dinheiro para nada. 

Depois disso, entramos em outra parte do relacionamento. Eu já estava mal psicologicamente por causa do meu avô, estava tendo alguns problemas no meu trabalho. Jorge começou a se aproveitar disso. Ele era manipulador.

Jorge começou a dizer que ia se matar o tempo todo. O pai dele era um policial aposentado, então ele dizia que usaria a arma dele para se matar em algum lugar. Ele chorava e dizia que ia se matar comigo dentro do carro. Comecei a ficar paranoica quando ele chegava muito tarde, porque vira e mexe ele saía de casa e falava que ia se matar em algum lugar. Com isso, passei a esperar ele chegar acordada para ver se estava tudo bem.

Tinha um jogo psicológico ali, e obviamente eu caí naquele papel de que eu ia consertar aquele cara. Virou uma chave em mim de que eu precisava ficar lá para esse cara, se não ele ia se matar.

Eu o convenci a procurar um psicólogo a preço popular. Também ajudei ele voltar a estudar, ele entrou em uma Escola Técnica. Os pais deles terceirizaram o problema deles para mim e passaram a me mandar mensagens perguntando se ele estava bem. Lembro da mãe dele dizendo que estava feliz que estávamos juntos, porque eu estava fazendo ele estudar.

As coisas começaram a não se encaixar. Ele trabalhava para caramba e nunca tinha dinheiro para pagar pensão, para pagar nada. Até descobrir que ele estava gastando a grana dele, curtindo a vida, enquanto eu estava pagando as responsabilidades financeiras dele.

Nosso relacionamento não era monogâmico, mas a base de um relacionamento é que você consiga se sustentar e fazer o que quiser. Descobri que ele estava saindo com várias pessoas do Twitter.

Ele tinha uma amiga que depois descobri que na verdade era uma namorada. Mesmo tendo um relacionamento aberto
, ele me dizia que era uma amiga e usava alguns termos para difamá-la, para provar que não estavam juntos.

Descobri que o tempo todo que eu estava emprestando dinheiro, ele estava largando o trabalho dele para resolver a vida dela. Sei que ele usou parte do valor com ela porque ele a ajudou a se mudar para fora da cidade e ainda mandou um celular para ela. Eles acabaram terminando depois.

A gente transava sem camisinha
, porque estávamos basicamente em uma união estável. Eu usava camisinha quando saía com outras pessoas, mas descobri depois que ele não. Talvez de tudo seja o que me deixa mais magoada, porque eu confiei naquela pessoa, a coloquei dentro da minha casa e ela não teve o mínimo de respeito por mim e pelo meu corpo.

Nesse período, eu decidi comprar um apartamento. Uma amiga me perguntou se ele moraria comigo, porque ele era gente boa. Eu não conseguia contar para as minhas amigas o que estava vivendo, porque era tão irreal e tão absurdo que uma pessoa que se diga feminista, como eu, caia nesse papo de homem, em uma história tão esdrúxula. Para todo mundo, ele era o namorado perfeito.

Acabou virando uma questão de dependência emocional. Chegou no momento em que eu tive que começar a pedir desculpa por ganhar bem, por trabalhar em uma emissora de televisão, por ter amigas que são teoricamente famosas, porque ele ficava me dizendo que era menor que eu, que era um fracassado. Eu me colocava lá embaixo. Acho que durante cinco meses do nosso relacionamento foi saudável. De resto, foi mais porque ele estava morando na minha casa. Pensava: ‘Como que eu vou pedir para um cara que mal ganha dinheiro ir embora?’.

Decidi terminar um dia antes de assinar o contrato para comprar o apartamento. Ele chegou em casa às quatro da manhã, me acordou e me contou que estava transando com uma cliente do aplicativo. Fiquei indignada porque ele não teve o mínimo de respeito por mim. Quando fui assinar o contrato no dia seguinte, pedi para que ele pegasse todas as coisas dele e fosse embora antes de eu voltar.

Ficamos um mês entre estar junto e não estar junto. Nessa época, ganhei ingressos do trabalho para ver um show de uma banda de rock. Convidei o Jorge para ir comigo, e ele me disse para não postar em nenhuma rede social que eu estava com ele, para que a ex-mulher não visse. Na realidade, ele fez isso porque ele disse para as pessoas que ganhou os ingressos em uma rádio e tinha me encontrado por lá.

Nesse mesmo dia, ele me disse que tinha trocado os quatro pneus do carro. E eu só me perguntei: ‘Com que dinheiro?’. Descobri que ele já estava namorando outra pessoa, e foi ela quem pagou os pneus. Ele passou a pedir dinheiro para ela também, e os dois passaram a morar juntos.

Pelo Twitter, soube de pelo menos mais duas pessoas com quem ele saía enquanto estávamos juntos. Vi que as duas me mandaram indireta. Tive algumas crises de ansiedade e de pânico porque ele queria mostrar que eu estava completamente errada de terminar com ele, que eu era um monstro e que ele tinha me dado tudo que podia. Ele me chamava para os outros de doida e alcoólatra.

Percebi que ele utilizava o suicídio para me colocar medo, para que eu não fosse embora, mas esse não era um plano dele de verdade. O Jorge é aquele tipo de pessoa que soca as paredes, tanto que soube pela mãe, a ex-mulher e a ex-namorada (que era namorada junto comigo) que a filha chegou em casa cheia de hematomas um dia.

Decidi que esse cara precisava me pagar, porque eu tinha uma vida para fazer. Falei para ele que, se ele não me pagasse tudo que já tinha dado para ele, eu iria na porta da casa dele. Ele vendeu o carro e me pagou, porque era melhor do que me ver de novo. Ele me devolveu cerca de R$2 mil a R$3 mil, o que é bastante coisa quando penso que eu estava pagando a pensão da filha dele. Depois soube que ele fazia isso com outras mulheres. Enquanto ele estava casado, ele ficou desempregado por sete anos e a ex era quem sustentava a casa e os dois filhos.

Eu caí nesse canto da sereia, assim como minhas amigas também caíram e acreditaram que ele era perfeito. Eu construí uma realidade paralela nas redes sociais e isso tornava difícil falar sobre o que estava acontecendo ou algo ruim sobre ele. Eu tentei incentivá-lo a ser melhor, a estudar e conseguir um bom emprego para não precisar mais ser motorista de aplicativo ou depender das pessoas. Mas aí eu percebi que era isso que ele queria fazer: continuar pedindo dinheiro para os outros, sofrendo e falando que a vida dele era uma merda no Twitter.”

Síndrome do Príncipe Encantado

A experiência pela qual Jéssica passou tem o nome: Síndrome do Príncipe Encantado. Significa se atrair pelo encantamento de um companheiro sem perceber que suas reais intenções são para tirar proveito. A psicóloga Maria do Carmo Santos, presidente da ONG Vítimas Unidas, explica que a internet facilitou esses tipos de golpes. Ao contrário do caso de Jéssica, é comum que a maioria das vítimas nunca tenha encontrado o golpista presencialmente.

Maria explica que muitas informações sobre a vítima são disponibilizadas por ela própria nas redes sociais. Por lá, é possível selecionar a vítima pelas situações e emoções que descreve on-line. “Quando uma pessoa começa a se relacionar pela internet, a outra pessoa já é um príncipe encantado, porque o homem não chega dizendo que é ciumento ou não demonstra ser tóxico”, explica a psicóloga.

Assim, o golpista vai ganhando a confiança da vítima, que se envolve e cria um laço emocional. Depois disso, começam a surgir “problemas” na vida deste homem, que começa a pedir ajuda, na maior parte dos casos financeira, para a vítima.

“Ele nunca vai dizer que quer dinheiro, mas que está passando por uma situação difícil, que precisa de ajuda para comprar alguma coisa. Nisso, a vítima se prontifica a ajudar”, explica. Esse padrão começa a se repetir com cada vez mais frequência.

O homem tende a fazer essa extorsão em troca de promessas para a vítima, geralmente ligada a um casamento
. No entanto, o golpista desaparece depois que conseguiu tudo que queria ou quando percebe que já não consegue mais tirar proveito daquela pessoa.

Maria explica que é muito comum que as mulheres não façam as denúncias sobre esse tipo de crime, porque se sentem ridicularizadas e tolas por se deixarem enganar. “Apesar do golpe, o sofrimento que essa mulher está passando é real. Ela fica decepcionada e a autoestima vai lá embaixo”, diz.

Em delegacias, a imagem que se tem dessas mulheres é de que são histéricas ou facilmente influenciáveis, visão influenciada pela cultura machista
. “Ela se torna uma boba por ter caído em um golpe que todo mundo sabe que homens aplicam. Mas todo mundo tem esse direito de querer um companheiro. O crime não é esse, mas são criminosos que abusam dessas pessoas”, diz.

*Os nomes foram alterados para preservar a identidade da fonte.



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