Jacarezinho: um dos presos aparece em uma foto com fuzilREPRODUÇÃO

Por Bruna Fantti e Thuany Dossares

Publicado 16/05/2021 06:00

Rio — O feriado de Finados de 2016, no Rio, ficou marcado pela sensação térmica de 39º graus, arrastões nas areias da Zona Sul e 68 ônibus depredados, a maioria da linha 474 (Jacaré-Jardim de Alah). Os vândalos integravam o chamado Coreto, gíria usada para grupos de menores que praticavam roubos e furtos para o tráfico. Entre os detidos, naquele dia, estava Smigol, de 15 anos, que furtara um cordão de ouro de uma mulher, no Leblon.

Quase cinco anos depois, sua ficha criminal possui nove anotações, sendo sete ainda enquanto menor. Smigol foi um dos presos, que tinham mandado, na Operação Exceptis, realizada no Jacarezinho, no último dia 6 de maio. No momento da prisão, portava um fuzil.

Levantamento feito pelo DIA mostra que, dos 27 mortos, apontados como criminosos, na operação, 11 começaram ainda adolescentes no crime; alguns, com mais de uma internação no Degase (Departamento Geral de Ações Socioeducativas) a partir dos 14 anos. Entre os sete presos, dois foram recrutados por traficantes ainda enquanto menores.

Sem oportunidades

De acordo com a Polícia Civil, um dos motivos para deflagrar a operação foi justamente o recrutamento de menores para o tráfico. Detalhes desse aliciamento constam em inquérito sigiloso da DPCA (Delegacia de Proteção à Criança e Adolescente).

Segundo Luciana Phebo, chefe da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) na Região Sudeste, a ausência de oportunidades facilita o ingresso no crime. “É essencial termos políticas específicas para prevenir diferentes formas de violência, como o aliciamento e o homicídio de crianças e adolescentes. É necessário investir em programas de oportunidades de renda e trabalho especialmente para adolescentes negros, nos territórios mais vulneráveis. Precisamos de um educação que proteja”, disse, em nota.

De acordo com o delegado Felipe Curi, diretor do Departamento Geral de Polícia Especializada (DGPE), o aliciamento de menores, principalmente pelo Comando Vermelho, é estratégica.

“Os traficantes cometem vários crimes e obrigam o menor a assumir a autoria, quando há algum problema. Isso porque, pela lei, o menor só pode ficar no máximo três anos internado em medida socioeducativa. Fora o aliciamento para uma série de atividades dentro da hierarquia do crime”, disse.

O Ministério Público fez uma força-tarefa para apurar a operação no Jacarezinho, a mais letal da história do Rio. Nela, um policial civil também morreu. Atualmente, 823 adolescentes cumprem medidas no Degase.

Tropa do Mantém: menores armados

O delegado Felipe Curi afirmou que, na favela do Jacaré, a Polícia Civil observou que os menores são utilizados também para enfrentar policiais. Os criminosos na comunidade são conhecidos por oferecer resistência com tiros e se intitulam como “Tropa do Mantém”.

“No Jacaré, antes tinham vários traficantes de fora, e as novas lideranças tiraram essas pessoas e ficaram com os ‘crias’; muito deles, menores. Deram armamentos, até fuzis, na mão desses menores, para eles fazerem a contenção da favela. A ordem ainda é não sair do posto, essa é a determinação da facção. Muitos ficam até numa missão difícil, de matar ou morrer. Detectamos essa cultura no Jacarezinho. São conhecidos como a Tropa do Mantém, e não podem sair do posto deles, se não podem sofrer punição”, contou.

Além do tráfico de drogas, o Comando Vermelho explora diversas outras atividades criminosas como roubos diversos, homicídios, porte ilegal de arma, lavagem de dinheiro, extorsão, de acordo com o diretor do DGPE.

Já no início de um dos relatórios da Polícia Civil sobre a operação, a dificuldade de se operar na comunidade é apontada. “A região do Jacarezinho é considerada um dos quartéis-generais da facção Comando Vermelho(“CV”) na Zona Norte do Rio de Janeiro. Em razão da dificuldade de se operar no terreno, em razão das barricadas e das táticas de guerrilha realizadas pelos marginais, o local abrigaria uma quantidade relevante de armamentos, os quais seriam utilizados nas retomadas de favelas perdidas por facções rivais ou para se reforçar de possíveis investidas policiais”.

Mafioso: filmado em laje e preso dentro de uma casa

Outro preso que foi aliciado ainda jovem para o crime também era integrante do chamado Coreto, grupo que roubava cordões e carteiras nas ruas do Centro do Rio e Zona Sul. Com o tempo, cresceu na hierarquia do tráfico mas, manteve o apelido que ganhou ao entrar no crime: Tikinho. Ele era um dos alvos, com mandado, da operação.

Sua ficha criminal é a mais extensa entre os presos: tem 12 anotações anotações, sendo nove delas entre os 15 e 17 anos. Em destaque estão os crimes de tráfico de drogas, associação criminosa e roubo a transeunte.

A primeira vez em que foi conduzido em uma viatura à delegacia ele tinha 15 anos. O ano era 2015, e ele foi pego por policiais militares após roubar um cordão na Avenida Presidente Vargas.

Com o tempo passou a carregar um fuzil e postava fotos armado, com o perfil Inimigo do Estado ou Mafioso. No dia da operação do Jacarezinho, a polícia o reconheceu após ser filmado em uma laje, fugindo. Ele foi preso, ao se esconder na casa de um morador.



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