O infectologista Julival Ribeiro adverte: “Temos de rejeitar as fake news sobre esse tema” | Fotos: Davidyson Damasceno/Agência Saúde

A vacina contra a Covid-19 é uma realidade em diversas partes do planeta. No Brasil, a expectativa é que a imunização comece ainda neste mês, com a oferta de duas vacinas: a CoronaVac, uma parceria do Instituto Butantan com o laboratório chinês Sinovac, e a AstraZeneca/Oxford, feita com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Mas o que dizem especialistas sobre o assunto, uma vez que o debate é atravessado por informações desencontradas?

A disseminação das chamadas fake news (notícias falsas) preocupa o infectologista Julival Ribeiro. Ele coordena o Núcleo de Controle de Infecção do Hospital de Base, unidade administrada pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF (Iges-DF). O médico brasiliense defende que a sociedade precisa acreditar mais na ciência e nas pesquisas desenvolvidas para se chegar aos resultados apresentados. “Se a OMS [Organização Mundial da Saúde] diz que para uma vacina ser aprovada é necessário apresentar uma eficácia mínima de 50%, isso significa que a vacina com esse percentual é eficaz”, afirma. “Temos de rejeitar as fake news sobre esse tema”.

“Se a OMS diz que para uma vacina ser aprovada é necessário apresentar uma eficácia mínima de 50%, isso significa que a vacina com esse percentual é eficaz”

Doutor em doenças tropicais pela Universidade de Brasília (UnB), Ribeiro também é membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e tem discutido com seus pares a situação atual da pandemia. “Hoje, apesar de alguns dizerem sem conhecimento que existe tratamento precoce, não existe”, adverte. “Nenhum antiviral no mundo é capaz de conter esse vírus. A única arma para tentar conter o problema é a vacina, conjuntamente com as medidas preventivas”.

O Ministério da Saúde está se preparando para conduzir a maior campanha de vacinação já vista no Brasil. O Governo do Distrito Federal (GDF), que aderiu ao Programa Nacional de Imunização (PNI), receberá as vacinas distribuídas pelo ministério e seguirá o cronograma nacional.

Desenvolvimento das vacinas

Em relação aos processos de confecção dos imunizantes, Julival Ribeiro explica que diversas plataformas tecnológicas foram usadas nas pesquisas, como a de RNA, a de vetores viral, a de vírus inativado e a de subunidades proteicas.

No caso da AstraZeneca/Oxford, a plataforma utilizada foi a de vetor viral não replicante. Para isso, foi usado um adenovírus, editado geneticamente e no qual foi incluída a proteína Spike do coronavírus. Dessa forma, um antígeno (proteína) vai estimular o sistema imunológico do indivíduo a produzir anticorpos contra o vírus que causa a Covid-19.

O infectologista do Hospital de Base alerta para uma das grandes notícias falsas do momento, de que a vacina cuja plataforma usa o RNA (da Pfizer/BioNtech, da Moderna) poderia mudar o material genético do ser humano, provocando mutações. “Não existe isso, é uma grande mentira”, assegura. “Temos de confiar na ciência e nas pessoas que falam a verdade”.

“Temos de confiar na ciência e nas pessoas que falam a verdade”

No caso da CoronaVac, a plataforma usada é bastante tradicional, por ser a mesma empregada na vacina contra a gripe. Trata-se do vírus inativado, incapaz de se reproduzir, ou seja, de causar a doença. Com isso, o vírus não infecta a pessoa vacinada, mas estimula a produção de anticorpos contra a Covid-19.

Ribeiro chama atenção para o resultado final das vacinas. Segundo ele, independentemente da plataforma, o princípio é o mesmo. “Todas as vacinas vão apresentar um antígeno (proteína) que estimulará o sistema imunológico da pessoa a produzir anticorpos para que, quando ocorrer uma infecção real, o organismo dessa pessoa esteja pronto a responder”, detalha.

Eficácia

Outro debate preocupante e nada produtivo, segundo Ribeiro, é sobre a eficácia das vacinas. De acordo com dados apresentados pelos laboratórios, a CoronaVac tem eficiência de 50,3%, e a AstraZeneca/Oxford, de 70%. “Isso significa que o risco de adoecer é 50,3% ou 70% menor entre vacinados se comparado com o risco de adoecer entre os não vacinados”, esclarece o médico. “Ao tomar a vacina anual da gripe, por exemplo, nós nem procuramos saber qual a eficácia da mesma”.

Futuro promissor

O infectologista acredita que dias melhores virão com o início da vacinação. Faz, no entanto, um alerta importante sobre o comportamento social. Segundo ele, medidas como distanciamento, uso de máscara e higienização das mãos devem perdurar por um tempo.

“As vacinas são um dos maiores bens da humanidade para a prevenção de doenças”

“É apenas o início”, afirma. “Temos uma população mundial de mais de 8 bilhões de indivíduos que precisam da vacina. As vacinas são um dos maiores bens da humanidade para a prevenção de doenças. Temos de olhar para o todo e não para o individual.”

 

* Com informações do Iges-DF

Fonte: Agência Brasilia